Brasil em Resumo
Economia
Perspectiva Histórica
A história econômica
do Brasil é marcada por uma sucessão de ciclos, cada um baseado na
exploração de um único produto de exportação: a cana-de-açúcar nos
séculos XVI e XVII; metais preciosos (ouro e prata) e pedras
preciosas (diamantes e esmeraldas) no século XVIII; e, finalmente, o
café no século XIX e início do século XX. O trabalho escravo foi
utilizado na produção agrícola, situação que perdurou até o final do
século XIX. Paralelamente a esses ciclos, desenvolveram-se uma
agricultura e uma pecuária de pequena escala, para consumo local.
A influência inglesa
na economia brasileira teve início no começo do século XVII.
Comerciantes ingleses espalharam-se por todas as cidades
brasileiras, especialmente Rio de Janeiro, Recife e Salvador. Em
meados do século XIX, as importações provinham totalmente da
Inglaterra. Os Ingleses também dominaram outros setores da economia,
como o bancário e o dos empréstimos estrangeiros (House of
Rothschilds), além de obterem controle quase total da rede
ferroviária, assim como do monopólio da navegação.
Pequenas fábricas,
basicamente de têxteis, começaram a aparecer em meados do século
XIX. No império, na gestão de D. Pedro II, novas tecnologias foram
introduzidas, a pequena base industrial aumentada e adotadas
modernas práticas financeiras. Com o colapso da economia
escravocrata (ficou mais barato pagar aos novos imigrantes do que
manter escravos), a abolição da escravatura em 1888 e a substituição
da Monarquia pelo regime republicano em 1889, a economia do Brasil
enfrentou grave situação de ruptura. Mal tinham começado a surtir
efeito os esforços dos primeiros governos republicanos para
estabilizar a situação financeira e revitalizar a produção, e os
efeitos da depressão de 1929 forçaram o país a adotar novos ajustes
na economia.
Um primeiro surto de
industrialização teve lugar durante a Primeira Guerra Mundial, mas
somente a partir de 1930 o Brasil alcançou certo nível de
desenvolvimento econômico em bases modernas. Nos anos 40, foi
construída a primeira siderúrgica do País, localizada na cidade de
Volta Redonda, estado do Rio de Janeiro, e financiada pelo Eximbank,
de origem norte-americana.
O processo de
industrialização, de 1950 e 1970, resultou na expansão de setores
importantes da economia, como o da indústria automobilística, da
petroquímica e do aço, assim como no início e conclusão de grandes
projetos de infra-estrutura. Nas décadas que se seguiram à Segunda
Guerra Mundial, a taxa anual de crescimento do Produto Nacional
Bruto (PNB) do Brasil estava entre as mais altas do mundo, tendo
alcançado até 1974, uma média de 7,4%.
Durante a década de
70, o Brasil, como vários outros países da América Latina, absorveu
a liquidez excessiva dos bancos dos Estados Unidos, Europa e Japão.
Grande fluxo de capital estrangeiro foi direcionado para
investimentos de infra-estrutura, enquanto empresas estatais foram
formadas em áreas pouco atraentes para o investimento privado. O
resultado foi impressionante: o Produto Interno Bruto (PIB) do
Brasil aumentou em média 8,5% ao ano, de 1970 a 1980, apesar do
impacto da crise mundial do petróleo. A renda per capita cresceu
quatro vezes, durante a década, para um nível de US$ 2.200 em 1980.
Entretanto, no início
dos anos 80, um inesperado e substancial aumento nas taxas de juros
da economia mundial precipitou a crise da dívida externa da América
Latina. O Brasil foi forçado a ajustes econômicos severos, que
resultaram em taxas negativas de crescimento. A inesperada
interrupção do ingresso do capital estrangeiro reduziu a capacidade
de investimento do País. O peso da dívida externa afetou as finanças
públicas e contribuiu para a aceleração da inflação. Na segunda
metade da década de 80, um conjunto de medidas duras foi adotado,
visando à estabilização monetária. Tais medidas compreenderam o
final da indexação (política que ajustava os salários e contratos de
acordo com a inflação) e o congelamento dos preços. Em 1987, o
Governo suspendeu o pagamento dos juros da dívida externa, até que
um acordo de reescalonamento com os credores fosse alcançado. Embora
essas medidas tenham falhado quanto ao resultado desejado, a
produção econômica continuou a crescer até o final da década de 80,
proporcionando excedente suficiente na balança comercial, para
cobrir o serviço da dívida.
A crise da década de
80 assinalou a exaustão do modelo brasileiro de substituição de
importações (política que visava a fortalecer a indústria brasileira
através da proibição da entrada de certos produtos manufaturados
estrangeiros), o que contribuiu para a abertura comercial do País.
No início dos anos 90, a política econômica brasileira concentrou-se
em três áreas principais: (1) estabilização econômica; (2) mudança
de uma situação de protecionismo em direção a uma economia mais
aberta, voltada para o mercado; e (3) normalização das relações com
a comunidade financeira internacional. No que se refere ao primeiro
item, foi adotada estrita disciplina fiscal, que incluía reforma
tributária e medidas que viessem a evitar a evasão fiscal,
desregulamentação e privatização, além da redução do controle de
preços, o que ocorreu em 1992, com o objetivo de estabelecer uma
verdadeira economia de mercado, eliminando-o por completo em 1993.
Pela primeira vez, o Brasil limitou a emissão de moeda. Com a
introdução da nova moeda, o Real, em julho de 1994, a taxa de
inflação anual, que era de 2.489,11%, em 1993, já havia sido
reduzida a cerca de 22% no ano seguinte. Em 1997, após processo de
redução gradativo, a taxa anual chegou a 4,34%, tendo alcançado seu
menor índice em 1998, 1,71%. Com a reforma do comércio exterior,
foram consideravelmente reduzidas as tarifas de importação. A tarifa
média caiu de 32%, em 1990, para situar-se entre 12 e 13% em 1998,
tendo a tarifa máxima caído de 105% para 35% no mesmo período. Em
termos efetivos de arrecadação, no entanto, a média do universo
tarifário brasileiro é de 9%. Os investimentos estrangeiros
totalizaram cerca de US$ 20,75 bilhões no ano de 1998. No primeiro
semestre de 2000, os mesmos montaram a US$ 12,7 bilhões. O Brasil
fechou também acordos com credores, tanto públicos como privados,
reescalonando os pagamentos da dívida e trocando os antigos papéis
por novos títulos. A privatização foi acelerada, principalmente nos
setores da produção de aço e, fertilizantes e telecomunicações.
Desde 1991, data do início do processo de privatização brasileiro,
até meados de 1999, cerca de 120 estatais brasileiras foram
privatizadas. A renda nacional foi prioritariamente direcionada para
a redução das dívidas. Como resultado das reformas na área de
comércio exterior, o Brasil tornou-se uma das economias mais abertas
do mundo, sem restrições quantitativas às importações. A
desregulamentação é evidenciada pela liberalização de políticas
financeiras, pelo final da reserva de mercado na área de eletrônicos
e informática e pela privatização de diversos setores até
recentemente sob o monopólio do Estado, tal como o das
telecomunicações ou o portuário.
Com o PIB em torno de
US$ 804,1 bilhões em 1997, a economia brasileira apresenta-se
dinâmica e diversificada. Em 1998, a indústria foi responsável por
34,0% do PIB, a agricultura por 8,4% e os serviços somaram 57,6%.O
dinamismo da economia do País reflete-se, entre outras áreas, no
comércio exterior e no desempenho das exportações. Em 1996, as
exportacões brasileiras apresentaram superávit de US$ 47,7 bilhões e
em 1997 alcançaram a cifra de US$ 52,9 bilhões. Somente no primeiro
semestre de 1999, as exportações brasileiras foram da ordem de US$
30,8 bilhões. A União Européia absorve 31% das exportações
brasileiras, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA)
responde por 25% (os Estados Unidos constituem o maior parceiro
comercial individual), a Ásia absorve 17%, o Mercosul, 16% e o
restante da ALADI, 10%. Ao Oriente Médio correspondem 4% do total,
estando as exportações remanescentes distribuídas por uma variedade
de mercados menores. Os principais parceiros individuais do Brasil
são os Estados Unidos, absorvendo cerca de 22,1% do total de
exportações, Argentina, 11%, e Holanda, 5,7%. Os principais produtos
da pauta de exportações brasileira são minérios de ferro, café, soja
e aviões.
Em 26 de março de
1991, foi criado o Mercado Comum do Sul (Mercosul), com a assinatura
do Tratado de Assunção, pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Ademais desses países-membros, o Chile e a Bolívia são membros
associados: assinam tratados para a formação da zona de livre
comércio, mas não participam da união aduaneira. O pacto foi
efetivado como uma união aduaneira e zona de livre-comércio em
caráter parcial, em 1º de janeiro de 1995. O objetivo do Mercosul é
permitir a livre movimentação de capital, trabalho e serviços entre
os quatro países. Os quatro países-membros comprometeram-se a manter
a mesma alíquota de importações para determinados produtos. Desde
1991, o comércio entre os países membros do Mercosul mais do que
triplicou. O comércio do Brasil com os países do Mercosul alcançou
US$ 18,7 bilhões em 1997, tendo sido de US $ 3,6 bilhões em 1990. Em
abril de 1998, o bloco firmou um acordo com o Pacto Andino para a
criação da Área de Livre Comércio da América do Sul (Alcsa), a
partir de 2000.
Panorama Socioeconômico
Durante os últimos 50
anos constatou-se uma mudança na distribuição da população
brasileira, por grupos de idade. Nesse período, foi registrado um
aumento na expectativa de vida dos brasileiros de 41,5 anos para
67,7. A parcela abaixo de 14 anos de idade caiu de 43% para 34%,
enquanto o segmento acima de 60 anos cresceu de 4% para 8%. A taxa
de alfabetização aumentou de 50% para 77%. Em 1997, a taxa de
alfabetização no Brasil foi de cerca de 83%. À medida que um maior
número de pessoas adultas ingressem no mercado de trabalho, teriam
que ser criados aproximadamente 1.600.000 novos empregos a cada ano
para acomodar os novos candidatos aos empregos.
A oferta de saneamento
básico no Brasil aumentou substancialmente nos últimos 25 anos.
Aproximadamente 96% dos domicílios contam com água potável, sendo
75% oriundos do sistema público de fornecimento e 21% oriundos de
poços e fontes naturais. Cerca de 73% das residências têm pelo menos
um sistema simplificado de escoamento de esgotos e 88% contam com
energia elétrica. Nas áreas urbanas, 90% das moradias recebem água e
serviços de esgoto e 98% têm energia elétrica. No entanto, nas áreas
rurais, apenas 17% das moradias recebem serviços de água e esgoto e
somente 55% possuem energia elétrica. Aproximadamente 70% dos
domicílios brasileiros têm geladeiras. Existe ainda um telefone
instalado e um automóvel para cada grupo de 10 brasileiros.
O Brasil obtém cerca
de 60% de seu suprimento de energia a partir de fontes renováveis,
como hidrelétricas e etanol. Também cerca de 64% do petróleo que
consome são produzidos internamente. O Brasil é o maior exportador
de ferro, assim como um dos maiores exportadores de aço do mundo.
Outros insumos produzidos no Brasil incluem petroquímicos, alumínio,
metais não-ferrosos, fertilizantes e cimento. Importantes produtos
manufaturados incluem veículos, aeronaves, equipamentos elétricos e
eletrônicos, têxteis, artigos de vestuário e calçados. Os Estados
Unidos, Alemanha, Holanda, Suíça, Japão, Reino Unido, França,
Argentina, México e Canadá são os maiores parceiros comerciais do
Brasil.
Ao entrar na última
década do século XX, o Brasil já estava entre as 10 maiores
economias do mundo. As exportações representam 10% de seu PIB; a
indústria soma cerca de 34%, um padrão encontrado em alguns países
desenvolvidos. Em 1999, a força de trabalho estimada no Brasil foi
de 70 milhões de pessoas. O setor de serviços responde por 39% da
força de trabalho, a agricultura por 5,4% e a indústria por 24%. O
comércio emprega 19,4% da força de trabalho do país, enquanto a
construção civil absorve cerca de 6% desse total.
A economia brasileira e o Plano Real
Marco Bonomo
Antecedentes
Desde a década de 40
até 1980, o Brasil cresceu a uma taxa média superior a 7% ao ano, a
segunda mais alta do mundo para o período em referência. Esse longo
período de crescimento foi acompanhado por um fechamento gradual da
economia, pois o coeficiente de importações, que era de
aproximadamente 37% do PIB em 1919, chegou a alcançar a taxa de 5%
do PIB em 1989. Vale ressaltar que o modelo de desenvolvimento
adotado então se baseava na substituição de importações.
O fato de ter o País
se tornado uma das economias mais fechadas do mundo e enfrentado
problemas para o pagamento da substancial dívida externa contraída
na década de 70 demonstrou o o esgotamento desse modelo. O
crescimento da dívida externa nos anos 70 foi acompanhado pelo
crescimento da taxa de inflação, que saltou de 15% ao ano em 1973
para 110% em 1980.
A década e meia
seguinte seria de estagnação, com os esforços da política econômica
voltados, em primeiro lugar, para resolver o problema da balança de
pagamentos e, em seguida, para o combate à inflação. A balança de
pagamentos era prioritária em relação à inflação, em um primeiro
momento, porque a retração do mercado de crédito internacional e o
reduzido estoque de reservas do país não possibilitava outra
alternativa. Ademais, a alta taxa histórica de inflação e seu
crescimento gradual estimularam o desenvolvimento de sofisticados
mecanismos de proteção financeira contra a inflação, o que permitiu
a convivência com taxas muito altas de inflação por longos períodos.
A partir de 1986,
inaugura-se o período marcado pelas tentativas de estancar a
inflação brasileira. Dada a ineficácia dos instrumentos tradicionais
para combater uma inflação desse porte, os caminhos da estabilização
não eram claros. A estabilização foi alcançada na sexta tentativa,
em 1994, com o que se chamou Plano Real. As cinco tentativas
frustradas de estabilização basearam-se em intervenções do governo
nas decisões econômicas dos indivíduos, de fixação de preços, ou de
destinação de suas riquezas, e tiveram curtos períodos de êxito. O
Plano Real, como veremos, foi menos intervencionista, e já conta com
três anos de êxito. A consolidação da estabilidade da economia
brasileira e da abertura comercial são os pilares da atual
recuperação do crescimento sustentável da economia, após mais de uma
década de estancamento e de indefinição da política econômica,
causadas pela crise da balança de pagamentos e pela inflação.
O Plano Real
A reforma monetária e a queda da inflação
Em março de 1994,
quando a taxa de inflação mensal alcançava a marca dos 40%, foi
lançado o Plano Real para estabilizá-la. Fruto da aprendizagem com o
fracasso dos planos anteriores, o plano era precedido por um esforço
fiscal, o chamado Fundo Social de Emergência, que desvinculava as
cobranças do governo, de seus gastos. Efetivamente, o controle
fiscal e monetário era visto como condição necessária para a
estabilização. Além disso, e principalmente, o plano fixava um novo
e engenhoso mecanismo de eliminação da inércia inflacionária.
Durante um período de
transição, que se estendeu até final de junho, criou-se um índice de
inflação denominado URV (Unidade Real de Valor), que serviria de
unidade corrente opcional para os preços e alguns contratos e
obrigatória para novos contratos e contratos de trabalho. Como o
índice tinha poder de compra estável, sua utilização como unidade de
conta tornava-se atraente diante da moeda inflacionária.
Outro componente da
reforma monetária era a desindexação dos contratos, considerada
importante para alcançar a estabilidade monetária. Com esse fim, o
instrumento legal de criação do real proibia a indexação de
contratos por períodos menores de um ano.
O êxito do mecanismo
foi retumbante. Como num passe de mágica a inflação caiu de cerca de
45% em junho para cerca de 6% em julho. Isto sem nenhum congelamento
de preços e ativos, que normalmente se transformam em bombas-relógio
programadas para explodir no futuro. A partir de então, o grande
desafio seria o de obter reduções graduais da inflação através da
consolidação dos fundamentos econômicos da estabilidade.
A consolidação da
estabilização: trajetória declinante da inflação
Os dados da inflação a
partir de julho de 1994 demonstram uma tendência contínua de queda.
As razões principais foram: gradual desindexação da economia, maior
transparência dos preços relativos obtida com a baixa inflação,
valorização do câmbio e abertura comercial, além de maior eficácia
da política monetária, propiciada pelos dois primeiros fatores
anteriores.
Além da indexação
formal estabelecida pelo Plano, a queda da inflação estimulava o
abandono da indexação informal, isto é, da prática de reajustar os
preços automaticamente, de acordo com a inflação passada.
Removia-se, portanto, um dos principais fatores de resistência
inercial da inflação.
Simultaneamente, como
conseqüência da estabilização, gerou-se um "boom" de consumo na
economia, que continuaria no primeiro trimestre de 1995. Essa
situação não era ideal para uma estabilização tão recente. Ademais,
com a abertura da economia e a valorização cambial, o "boom" do
consumo se transformou também em um "boom" de importações. Embora
por um lado o aumento das importações atenuasse o efeito do excesso
de demanda sobre a inflação, com a crise do México, de dezembro de
1994, afetando a entrada de capital externo, a manutenção desse grau
de aquecimento da economia se tornaria temerária também para a
balança de pagamentos. No segundo trimestre de 1995, quando a
inflação começava a mostrar tendência de alta, o governo adotou
rigorosas medidas de restrição de crédito, que se mostraram bastante
eficazes a partir do terceiro trimestre, ocasionando a queda do
nível de atividade e da inflação, além da melhoria do desempenho da
balança comercial. A inflação continuou caindo durante o ano de
1996, quando a economia começou a se recuperar, especialmente
durante o segundo semestre. No último trimestre de 1996, a inflação
alcançou taxas anuais de um dígito. Havendo passado de taxas de mais
de 40% mensais a taxas da ordem de 3,5% no terceiro trimestre de
1994, como conseqüência instantânea da reforma monetária, a inflação
seguiu, durante os primeiros dois anos e meio do plano, uma
trajetória de queda gradual, alcançando taxas médias mensais da
ordem de 0,5% no último trimestre de 1996.
A gestão
macroeconômica após o Real
A estabilidade
econômica, para ser duradoura, deve ter sólidos fundamentos
macroeconômicos. Entre eles, uma política fiscal consistente a longo
prazo, uma política monetária austera, mas que não comprometa a
situação fiscal, e uma situação de balança de pagamentos sustentável
a longo prazo. O Brasil tem muitos desafios a vencer nesta direção.
Tem um Estado repleto de empresas de sua propriedade, com uma
burocracia ineficiente e desmotivada, além de uma previdência social
estruturalmente deficitária. Tem tido taxas de juros tão altas a
ponto de os gastos com pagamento de juros terem se tornado
excessivamente importantes no orçamento do governo. Além disso, a
balança comercial tem sido crescentemente deficitária, ocasionando
saldos da balança em conta corrente ainda mais deficitários. Essas
situações podem ameaçar a estabilização a longo prazo. Elas ocupam
lugar de destaque na agenda econômica do governo e estão sendo
enfrentadas de forma gradual.
Política fiscal e
reformas estruturais
As reformas
estruturais: o combate ao déficit público e a racionalização do
Estado são dois dos principais objetivos das reformas estruturais
que se encontram na agenda do atual governo. Algumas mudanças
importantes já se realizaram, como a aprovação da emenda
constitucional sobre a Ordem Econômica, que abriu à participação do
setor privado setores como o petrolífero, de telecomunicações e de
distribuição de gás. Ademais, foi abolida na Constituição, a
diferença entre o capital estrangeiro e o capital nacional.
Juntamente com as
reformas constitucionais, a privatização dos setores ligados à
produção de matéria prima e de infra-estrutura poderá constituir-se,
além de reduzir o chamado "Custo Brasil", uma importante fonte de
arrecadação para os governos federal e estaduais, permitindo redução
significativa da dívida pública. Foram privatizadas, entre outras, a
Companhia Siderúrgica Nacional, a maior do país, a Light, importante
distribuidora de energia, grande parte da rede ferroviária federal e
algumas companhias estatais, especialmente de distribuição de
energia elétrica. Em 1996, o governo arrecadou US$ 4,3 bilhões com o
programa de privatizações. Espera-se que o programa ganhe impulso
com a privatização da Companhia Vale do Rio Doce, a maior produtora
de minério de ferro do mundo; Furnas e Eletrosul, empresas federais
da área de geração de energia elétrica; assim como com a
privatização dos portos. A importância desta última revela-se
principalmente pela ineficiência dos portos brasileiros, que gera
custos excessivamente altos para seus usuários.
Uma questão
importante, que suscitou acalorados debates políticos, refere-se ao
uso dos recursos arrecadados com as privatizações. Enquanto o
Ministério da Fazenda defende seu uso exclusivo para a redução da
dívida pública, existe pressão política para a utilização dos
recursos arrecadados nos mais variados fins. Outra importante fonte
de arrecadação para o governo, também proveniente de mudanças
estruturais, é a venda de concessões para a exploração de rodovias e
da telefonia celular. No entanto, a tendência é que pelo menos parte
dos recursos arrecadados seja utilizada em linhas de financiamento
do setor privado.
As reformas
constitucionais previstas, caso sejam aprovadas pelo Congresso sem
alteração substancial de seu conteúdo, devem aliviar as contas do
governo no que se refere às despesas. A reforma administrativa, ao
restringir a estabilidade dos funcionários públicos - em particular
nos casos em que mais de 60% da arrecadação dos governos esteja
comprometida com o pagamento de salários - e impor um limite máximo
aos salários dos funcionários públicos de qualquer procedência, deve
ter como resultado uma redução dos gastos do governo em folhas de
pagamento, especialmente ao nível estadual. A reforma do Sistema de
Seguridade Social, que em seu modelo atual é estruturalmente
deficitário, aponta para a correção das principais distorções
relativas ao seu financiamento, com modificações das regras, que
incluem o aumento da idade média para aposentadoria. Existe também
uma reforma tributária em gestação, cuja mudança principal a ser
introduzida refere-se ao maior alcance do imposto sobre o valor
agregado federal, hoje restrito à indústria.
O déficit
orçamentário: o Plano Real foi precedido de um esforço para a
redução do déficit público brasileiro e a medida mais importante
nesta direção foi a criação do Fundo Social de Emergência, que
desvinculava os recursos arrecadados dos gastos do governo. O
esforço fiscal de 1994 teve como resultado um superávit operacional
de 1,32% do PIB.
A estabilização mudou
significativamente o regime fiscal. O governo estava acostumado a
controlar gastos através do adiamento dos gastos previstos em
orçamento que, desta forma, eram corroídos pela inflação. A
estabilização acabou com esta possibilidade, reduzindo o controle do
Executivo sobre o orçamento. Por outro lado, a estabilidade reduziu
a preocupação do Congresso com o déficit orçamentário. Isto se
refletiu nas dificuldades do Executivo em aprovar as reformas
estruturais nos moldes por ele propostos, levando à sua prorrogação.
Por todas essas
razões, o orçamento primário do governo, que não incluiu os juros da
dívida pública, sofreu uma deterioração inicial importante em
seguida à estabilização, com uma redução do superávit da ordem de
5,09% do PIB em 1994 para 0,33% em 1995. O aumento dos gastos com
pagamento de juros, que alcançou 5,14% do PIB, fez com que o
orçamento do governo, em seu conceito operacional, fosse deficitário
em 4,79% do PIB. Com este resultado contribuíram os elevados índices
da taxa de juros reais neste primeiro ano e meio de estabilização. A
redução contínua do nível da inflação e o substancial ingresso de
capitais, que teve como resultado um grande crescimento das
reservas, permitiu que o Banco Central adotasse uma política de
redução gradual dos juros reais em 1996. Este fato levou a uma
redução dos gastos do governo com juros e foi a principal razão para
a modesta melhoria do resultado operacional de 1996, que fechou o
ano deficitário em 3,91% do PIB.
Esses números do
déficit fiscal não são alarmantes se comparados com os de outros
países desenvolvidos. No entanto, um país em desenvolvimento, em
processo de estabilização, precisa de resultados exemplares para
alcançar um alto grau de credibilidade em nível internacional.
Espera-se uma melhoria de resultados nos próximos anos. Se a
economia se mantiver numa trajetória de crescimento sustentado, a
taxa de crescimento médio nos próximos anos deverá ser superior à
dos últimos anos, levando a um aumento automático da arrecadação. No
que se refere aos gastos, espera-se uma redução de despesas nos
estados e municípios, além de uma redução adicional do gasto com
juros, graças à redução das taxas reais de juros e à redução da
dívida a partir das arrecadações oriundas do processo de
privatizações.
Política cambial e setor externo
A abertura comercial e
a valorização cambial foram consideradas instrumentos fundamentais
para a redução da inflação em seguida à reforma monetária e com
vistas à manutenção da inflação em baixa. No entanto, a mesma
competição externa, considerada benéfica do ponto de vista da
inflação e dos consumidores, teve forte impacto sobre a produção em
certos setores menos eficientes, que não foram capazes de superar a
competição externa. Além disso, as importações demonstraram grande
dinamismo enquanto o desempenho das exportações foi medíocre,
resultando em crescentes déficits comerciais e em conta corrente.
Por essas razões, analistas preocupados com a sustentação da
situação no quadro externo associaram-se aos interesses dos setores
mais afetados pela competição externa, reivindicando a reversão da
política cambial, seja através de maior proteção tarifária para a
indústria doméstica, seja através de uma desvalorização substancial
da moeda. Como veremos, a resposta do governo relacionou-se
essencialmente com a manutenção da abertura comercial, que foi
viável porque um significativo fluxo de capitais externos
possibilitou o financiamento do crescente débito em conta corrente,
enquanto se espera que os estímulos dados às exportações surtam
efeito.
A balança comercial
brasileira apresentava superávit desde 1983, com exceção de apenas
um breve período em 1986, quando se produziu um excesso de demanda
generalizada em conseqüência do Plano Cruzado. A balança comercial
alcançou seu apogeu em 1992, com um superávit comercial de mais de
US$ 15 bilhões. Com a redução da proteção tarifária, a partir de
1990, quando a tarifa média passa de 35% ao ano em 1990 para 14% em
meados de 1993, o superávit começa a cair, devido ao forte
crescimento das importações. Este crescimento era de se esperar,
dado o baixo coeficiente de importações predominante até então.
O Plano Real
acrescentou a esse quadro uma valorização real da taxa de câmbio, de
cerca de 15% em 1994, e um "boom" de consumo causado pela queda
brusca da inflação. Não surpreende que as importações tivessem um
impulso adicional, com o país terminando o ano de 1994 com déficits
comerciais mensais. Para agravar a situação, a crise do México em
dezembro de 1994 reduziu o ingresso de capitais em princípios de
1995 e suscitou dúvidas acerca da capacidade de sustentação da
situação externa. O governo não teve outra alternativa a não ser
freiar a economia e começar a corrigir gradualmente o câmbio, de
modo a reduzir a defasagem cambial. A política começa a dar
resultados na metade do ano, quando os déficits comerciais são
eliminados e os superávits, embora modestos, voltam a entrar em
cena. No segundo semestre de 1996, os déficits comerciais tornam a
ser sistemáticos e crescentes, mantendo-se essa tendência em 1997. A
diferença em relação à situação existente no início de 1995
encontra-se no forte ingresso de capitais externos, que possibilitou
um aumento das reservas da ordem de US$ 8 bilhões em 1996.
Contribuiu para o
resultado moderado das exportações em 1996 uma queda nas cotações
das principais commodities industrializadas, que compõem a pauta dos
produtos semimanufaturados. Por outro lado, o volume exportado de
produtos manufaturados, que corresponde a 55% do total, cresceu
apenas 2,39%.
O governo tomou
diversas medidas em 1996, com o objetivo de estimular as
exportações, tendo sido a mais importante delas a isenção de ICMS
(imposto sobre o valor agregado arrecadado pelos estados) para os
produtos agrícolas e semi-manufaturados, e para os investimentos
nesses setores. Em dezembro foram tomadas novas medidas, desta vez
para aumentar o alcance e reduzir o custo dos financiamentos às
exportações, concedidos pelo BNDES (Banco de Desenvolvimento
Econômico e Social). Espera-se que ao longo do tempo haja uma
redução gradual do "Custo Brasil", no qual se incluem os altos
custos sistêmicos da economia brasileira em relação aos padrões
internacionais. Espera-se também que os incentivos dados ao
investimento no setor exportador tragam resultados a médio prazo,
especialmente porque a limitação da capacidade produtiva é
considerada o principal obstáculo para o crescimento das exportações
de produtos manufaturados.
Por outro lado, o
aumento das importações, tomado isoladamente, pode ser considerado
desejável para um país cujo coeficiente de importações é ainda um
dos mais baixos do mundo. Pode ser considerado como parte da
transição de uma economia quase autárquica a uma economia aberta e
competitiva. No entanto, a associação do mau desempenho da balança
comercial com a proteção de indústrias domésticas específicas tem
levado a algumas medidas de alcance ilimitado que significam um
retrocesso temporário na política de abertura. Tais medidas foram
tomadas inicialmente em 1995. No entanto, as medidas de restrição às
importações estão muito aquém do desejado por certos setores da
opinião pública brasileira. Por esse motivo, apesar de alguns
retrocessos, pode-se dizer que, essencialmente, o governo tem
resistido às pressões para reverter a abertura comercial.
O perfil do capital
que ingressa no país tem melhorado significativamente. A
participação do investimento líquido direto na captação de recursos
externos aumentou sucessivamente, chegando a quase 60% em 1996. A
aceleração do programa de privatizações deve contribuir para a
continuidade dessa tendência. O ingresso de capitais sob a forma de
empréstimos externos também tem-se dado em condições mais
vantajosas, com sucessivas reduções do custo e aumento do prazo
médio. A redução do risco Brasil, percebido no exterior, a extensão
do prazo médio de financiamento dos empréstimos e o aumento da
participação do investimento direto na captação externa são fatores
que atenuam o efeito de uma queda na taxa de juros doméstica sobre a
captação externa, favorecendo a continuidade de seu processo de
redução gradual.
Perspectivas
Com a economia
estabilizada, maior abertura comercial, e com reformas estruturais
que visam a tornar o Estado menor e mais eficiente, a economia
brasileira retoma a perspectiva do crescimento sustentável. Mas as
reformas estruturais, embora propostas pelo executivo, dependem da
aprovação do legislativo para entrarem em vigor com versões que não
representem um desfiguramento do original. Embora o lobby de certos
interesses particulares seja forte no Congresso, dificultando a
rápida aprovação das reformas estruturais, a crescente penetração
através dos meios de comunicação, das questões referentes à
ineficácia do setor público e aos privilégios de certos setores
assalariados deve resultar em sua aprovação, em prazo um pouco mais
longo.
O maior obstáculo para
o crescimento sustentável parece ser, portanto, a balança comercial,
pois esta tem se mostrado muito deficitária cada vez que se acelera
o crescimento econômico. Como as importações caem e as exportações
aumentam quando se freia o crescimento econômico, não se pode
descartar a hipótese de que em algum momento futuro o governo se
veja tentado ou seja obrigado a restringir o crescimento da economia
de modo a reduzir temporariamente o déficit da balança comercial.
Para que o atual déficit seja sustentado e para que não se reverta a
abertura comercial, torna-se essencial que se antecipe um
crescimento futuro substancial das exportações.
O aumento da
produtividade e os lucros da eficiência, que estão em curso numa
economia progressivamente aberta e competitiva, devem, a médio
prazo, refletir-se num aumento da competitividade do setor
exportador. A privatização da infra-estrutura, em especial a
portuária, que deverá ter como resultado melhores serviços a custos
mais baixos; a isenção das exportações, da pesada carga tributária;
as linhas de financiamento abertas pelo BNDES à exportação; e a
desvalorização gradual da taxa de câmbio real são exemplos de
iniciativas do governo, que deverão ter como resultado, estímulos à
exportação.
As alternativas
incluiriam reverter a política de abertura comercial, ou realizar a
maxidesvalorização cambial. A primeira alternativa implicaria uma
volta ao passado, abandonando o novo modelo de desenvolvimento
aberto, com todas as conseqüências negativas para a eficiência
econômica e para a credibilidade internacional do país. A segunda
alternativa poderia provocar um aumento súbito da inflação e uma
perda de credibilidade na política econômica. De qualquer forma,
provocaria um aumento da incerteza que, certamente, teria efeitos
nocivos sobre o fluxo de capital externo e sobre o investimento na
economia.
|