As relaį?es internacionais

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Tudo sobre turismo no Brasil

Uma enciclopédia de Brasil


A Diplomacia do Governo Lula

Embaixador Celso Luiz Nunes Amorim

Introduįāo

O Presidente Lula referiu-se em seu discurso de posse ā "energia ético-polātica extraordināria" do atual momento nacional. Em poucas ocasiāes em nossa Histāria dispusemos de um capital polātico comparāvel ao que se expressa hoje pela voz do Presidente Lula e de seu Governo.


O Brasil é um ator importante no cenārio internacional por suas dimensāes, por sua relevância polātica e econômica, pela forįa de sua identidade. Mas somos também uma naįāo em desenvolvimento que se ressente de sérias vulnerabilidades econômicas e sociais. Reconhecemos isto com objetividade e capacidade de autocrātica. Nāo desejamos cair, seja no ufanismo irrealista, seja num ceticismo que conduz ā passividade e a posturas meramente reativas.


A aįāo diplomātica do Governo Lula estā impregnada de uma perspectiva humanista, que faz com que seja, a um sā tempo, instrumento de desenvolvimento nacional e defensora de valores universais. Assim, nos concentraremos tanto em projetos de interesse imediato – com ęnfase na promoįāo da integraįāo do MERCOSUL e da América do Sul, na articulaįāo de uma agenda comercial afirmativa e na intensificaįāo de parcerias bilaterais – como em objetivos de natureza mais ampla, como a reduįāo do hiato entre ricos e pobres, a promoįāo e proteįāo dos direitos humanos, a defesa do meio ambiente e a construįāo de um mundo mais justo, mais seguro – e mais pacāfico - com base no Direito Internacional e nos princāpios do multilateralismo.


A América do Sul


Nossa prioridade é indiscutivelmente a América do Sul. Uma América do Sul politicamente estāvel, socialmente justa e economicamente prāspera é um objetivo a ser perseguido nāo sā por natural solidariedade, mas em funįāo do nosso prāprio progresso e bem-estar.


O espaįo econômico unificado que procuraremos construir terā como alicerces o livre comércio e projetos de infra-estrutura entre os paāses sul-americanos, com o indispensāvel reconhecimento de que hā situaįāes de assimetria a serem levadas em conta.


Dispomos de uma sālida base de amizade e cooperaįāo com cada um dos paāses da regiāo, a qual se beneficia, hoje, de um forte compromisso democrātico.


Em todos os contatos que tenho tido, e nos que pude observar do Presidente Lula com outros Presidentes, percebo o enorme interesse em compartilhar nāo sā os programas, mas a energia reformadora no campo social, que é a marca principal do atual Governo.


Com a Argentina desejamos um aprofundamento da alianįa estratégica, com vistas a transformā-la no motor da integraįāo da América do Sul, a comeįar pela revitalizaįāo do MERCOSUL. O objetivo é ir além da liberalizaįāo dos fluxos de comércio intrazona, consolidar a Uniāo Aduaneira e avanįar em direįāo ao Mercado Comum. Esperamos – mais do que isso, estamos seguros - que quem quer venha a ser eleito Presidente, no pleito que se avizinha nesse paās irmāo, compartilharā esta visāo.


No processo de integraįāo do MERCOSUL, o Governo Lula se compromete a fazer sua parte, com vistas ā eliminaįāo de barreiras e ao fortalecimento da coesāo interna. Reconhecemos que o fato de sermos a maior economia nos impāe responsabilidades especiais e exige de nās nāo sā uma clara visāo estratégica, mas até mesmo, em muitos casos, generosidade. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para impedir que o burocrātico se sobreponha ao polātico. Ao mesmo tempo consideramos essencial a unidade do MERCOSUL em seu relacionamento externo. Esta é a essęncia da mensagem que levei nas viagens que fiz aos nossos tręs sācios, nestes primeiros meses de governo.


A dimensāo social da integraįāo jā estā sendo revalorizada. Em āltima instância, a integraįāo polātica demandarā a criaįāo de um Parlamento do MERCOSUL, idéia sobre a qual jā comeįamos a trabalhar com nossos vizinhos.


Os Acordos de Complementaįāo Econômica firmados com Chile e Bolāvia e o aprofundamento das relaįāes econômicas e comerciais com os paāses do norte da América do Sul constituem aspectos essenciais do projeto de criaįāo de um espaįo comum de integraįāo.


O patrimônio de integraįāo gerado pelo sistema ALADI serā valorizado, em consonância com a perspectiva de pleno aproveitamento dos interesses comuns e afinidades que nos unem ao mundo latino-americano e do Caribe como um todo.


A Organizaįāo do Tratado de Cooperaįāo Amazônica oferece um mecanismo para intensificarmos a coordenaįāo polātica com os paāses da bacia Amazônica e ampliarmos a cooperaįāo nas āreas ambiental, de educaįāo e saāde.


Para sermos capazes de contribuir de maneira efetiva para a diminuiįāo das tensāes polāticas e sociais que afetam a regiāo, precisamos desenvolver uma compreensāo aprofundada tanto de suas raāzes comuns, como de suas complexidades individuais.


Desde que assumi minhas funįāes, tenho dedicado considerāvel tempo ās tentativas de contribuir para um encaminhamento positivo da situaįāo na Venezuela, tendo sempre presente o postulado bāsico da nāo-intervenįāo. Constituāmos um ‘grupo de amigos' integrado por Chile, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal, além do Brasil, para apoiar e complementar os esforįos do Secretārio-Geral da Organizaįāo dos Estados Americanos, César Gaviria. Respeitado o primado da democracia e da constitucionalidade – e, portanto, a legitimidade do Governo do Presidente Hugo Chāvez - procuramos facilitar o diālogo que possa levar a um convāvio construtivo e benéfico para a naįāo venezuelana e para a regiāo. Nossas sugestāes - e nāo nos furtamos a fazę-las – tęm que ser vistas neste contexto: como uma contribuiįāo ao diālogo, pois estamos convictos de que, em āltima instância, cabe aos venezuelanos – e somente a eles – encontrar as soluįāes para os seus problemas. Tudo o que podemos fazer é ajudar na criaįāo de um clima de confianįa que conduza a este objetivo.


A violęncia polātica na Colômbia requer um acompanhamento igualmente atento, por seu potencial desestabilizador. A visita do Presidente Uribe ao Brasil em 7 de marįo permitiu um intercâmbio extremamente ātil entre os lāderes dos dois paāses. Dentre as idéias aventadas, figurou a do estabelecimento de um embargo contra todos os movimentos armados – guerrilha e para-militares - sob supervisāo do Conselho de Seguranįa das Naįāes Unidas. Acordamos também revitalizar a Comissāo de Vizinhanįa Brasil-Colômbia, com vistas a estimular a cooperaįāo bilateral em variados campos e, sobretudo, a uma maior sintonia entre os dois Governos em temas relacionados ā fronteira comum, com ęnfase no combate ao narcotrāfico.


O desejo de maior entrosamento entre os Governos da América do Sul jā se espelha em uma agenda de encontros, de freqüęncia raramente vista, com os lāderes dos paāses da regiāo, além, naturalmente, do diālogo permanente entre nossas Chancelarias. Estamos imprimindo um carāter, ao mesmo tempo, substantivo e informal a estes encontros. Nos prāximos dias, estāo previstas visitas ao Brasil dos Presidentes Toledo, do Peru, Chāvez, da Venezuela, Sānchez de Lozada, da Bolāvia, e Batlle, do Uruguai. Jā recebemos em Brasālia os Presidentes Duhalde, da Argentina, e Uribe, da Colômbia. O Presidente Lula esteve na posse do Presidente Gutierrez do Equador e visitou o Chile como Presidente-eleito. De minha parte, estive em Buenos Aires, em Assunįāo e, por duas vezes, Montevidéu.


A criaįāo da Subsecretaria-Geral para a América do Sul nos fornecerā uma estrutura melhor aparelhada para esta intensa articulaįāo diplomātica com nossos vizinhos sul-americanos.


O compromisso com o multilateralismo na construįāo da paz


O 11 de setembro trouxe o combate ao terrorismo ā frente da agenda internacional. A escala e o horror do atentado contra o World Trade Center em Nova York despertaram na superpotęncia do pās-Guerra Fria um sentimento de vulnerabilidade sem precedentes, cujo impacto sobre o ordenamento internacional continuarā a se fazer sentir por muito tempo. Passado o momento inicial de apoio consensual ā resposta militar norte-americana contra os fundamentalistas do Talibā e do Al Qaeda, a opįāo militar como forma de assegurar o desarmamento do Iraque nāo obteve o apoio do Conselho de Seguranįa, provocando cisāo inédita na OTAN e polarizando a opiniāo pāblica mundial. A instabilidade inerente a um sistema de desequilābrio de poder se viu agravada por fortes divergęncias na forma de avaliar as ameaįas e de como lidar com elas.


O Brasil defendeu com firmeza que o Iraque cumprisse plenamente suas obrigaįāes, em particular no que tange ao trabalho dos inspetores da ONU, para garantir que as armas de destruiįāo em massa estivessem efetivamente eliminadas. Apoiamos todas as resoluįāes pertinentes do Conselho de Seguranįa e exortamos o Iraque a cumpri-las. Vāamos mérito na tese de reforįar as inspeįāes e dar tempo para que pudessem provar sua utilidade. Sabāamos que o custo, em termos humanos, de uma aįāo militar seria muito alto.


Lamentamos, assim, que nāo se tenha perseverado na busca de uma soluįāo pacāfica para a crise.


Em linha com estas preocupaįāes, o Presidente da Repāblica e eu prāprio mantivemos contatos com nossos homālogos dos paāses da nossa regiāo, e de fora dela, sobretudo com os atores com maior influęncia no processo. Em cartas endereįadas a Kofi Annan e ā Sua Santidade o Papa Joāo Paulo II – que tive a honra de entregar pessoalmente - o Presidente Lula consignou o consenso nacional em favor da paz e do respeito ao direito internacional no encaminhamento da questāo do Iraque.


Estas palavras abstratas nāo devem encobrir o sentido trāgico, o espanto e a dor da guerra, que tanto nos abala, além das implicaįāes mundiais e regionais.


Ao olharmos para o futuro, continuamos a considerar que a concertaįāo diplomātica representa a melhor forma de se forjar um consenso internacional na luta contra a proliferaįāo de armas de destruiįāo em massa, o terrorismo e outras ameaįas ā paz e seguranįa internacionais.


O tema do Iraque continua a confrontar a comunidade internacional com enormes desafios, para além das repercussāes que possa ter no prāprio Oriente Médio.


As Naįāes Unidas nāo devem limitar-se a limpar os escombros dos conflitos que ela nāo tenha sido capaz de evitar. Reconhecemos e valorizamos o seu papel na prestaįāo de assistęncia humanitāria e na reconstruįāo institucional. Mas a ONU nāo é a Cruz Vermelha. A preservaįāo da paz e seguranįa internacionais com pleno respeito aos princāpios da Carta é, e deve continuar a ser, sua principal missāo.


Um mundo em que o recurso ā forįa deixe de se fundamentar em regras multilaterais serā intrinsecamente instāvel, estruturalmente inseguro.


Privilegiamos o multilateralismo em toda a amplitude de seu sentido democrātico, como a ānica via dotada de legitimidade para solucionar os problemas que requerem cooperaįāo internacional, por mais que os seus debates possam parecer, por vezes, prolongados e frustrantes.


Do mesmo modo que repudiamos, no plano interno, a eficācia ilusāria da autocracia, tampouco desejamos, no plano das relaįāes internacionais, decisāes unilaterais que desconsideram a diversidade de opiniāes e os critérios multilateralmente estabelecidos.


Como disse ontem o Presidente do Senado Federal, tāo urgente quanto a reconstruįāo do Iraque é a reconstruįāo das prāprias Naįāes Unidas. De particular relevância neste contexto é a questāo da reforma do Conselho de Seguranįa. ārgāo principal do sistema da ONU, o Conselho de Seguranįa deve sua autoridade ā sua representatividade. Seu fortalecimento requer o aperfeiįoamento de seus métodos de trabalho e sua ampliaįāo equitativa, o que significa essencialmente contar com paāses em desenvolvimento entre seus membros permanentes. Este nāo é um objetivo deste ou daquele paās. E uma necessidade do prāprio sistema internacional.


Em janeiro de 2004, voltaremos a integrar o Conselho de Seguranįa por mais um bięnio, como membros nāo-permanentes. Serā a nona vez, desde que as Naįāes Unidas foram criadas, que participaremos dos seus trabalhos. Para um Governo comprometido com o multilateralismo e com a paz, trata-se de uma oportunidade valiosa. A complexidade e a profundidade da crise atual impāem que nos antecipemos ā nossa acessāo formal ao Conselho e busquemos ativamente participar das articulaįāes internacionais em torno do pleno restabelecimento da paz e da seguranįa.


Em paralelo, nāo podemos descuidar do trabalho da Assembléia Geral na ārea do desarmamento e nāo-proliferaįāo, que sāo duas faces de uma mesma moeda. Como integrantes do grupo da chamada "Nova Agenda" (composto também por āfrica do Sul, Egito, Irlanda, México, Nova Zelândia e Suécia), manteremos uma aįāo coordenada sobre o tema da eliminaįāo total de armas nucleares, sem a qual todos os esforįos com vistas ā nāo proliferaįāo de armas de destruiįāo em massa permanecerāo incompletos.


A Histāria nos confronta com sérias responsabilidades na reorganizaįāo das relaįāes internacionais. O momento exige diālogo, diplomacia, negociaįāo, lideranįa polātica, moral e até mesmo espiritual, como disse o Presidente em sua carta ao Papa. A mesma aspiraįāo por desenvolvimento e progresso social, que moldam a aįāo governamental em âmbito interno, nos mobilizarā nos planos regional e global. Nossa aspiraįāo por paz e solidariedade passa necessariamente por uma atenįāo detida para as caręncias dos menos favorecidos. As visāes da ordem internacional, que privilegiam a forįa e concebem o multilateralismo como apenas uma opįāo entre muitas, devemos contrapor um projeto de paz com justiįa social, fundado em formas de concertaįāo democrātica e no direito internacional.


A entrada em operaįāo do Tribunal Penal Internacional constitui um passo encorajador nessa direįāo. Ao comparecer a sua inauguraįāo, em princāpios de marįo, pude nāo somente cumprimentar a brasileira Sylvia Steiner, eleita Juāza do Tribunal, como expressar o apoio do Governo brasileiro ao aparelhamento do direito internacional para reduzir a margem de impunidade para perpetradores de crimes contra a humanidade. E um instrumento importante, cuja aplicaįāo nāo deve comportar restriįāes ou tratamentos excepcionais.


Devemos preservar as conquistas conceituais que emergiram das grandes Conferęncias da década de noventa sobre direitos humanos, populaįāo, desenvolvimento social, situaįāo da mulher, combate ao racismo, bem como transformā-las em aįāes prāticas. A importância atribuāda ā promoįāo e proteįāo dos direitos humanos se reflete, no plano interno, na criaįāo de Secretarias Especiais para a promoįāo da igualdade racial, de polāticas para as mulheres, da assistęncia e promoįāo social. Juntamente com a Secretaria de Direitos Humanos, esses ārgāos auxiliarāo o Itamaraty em nossa atuaįāo externa, regional e multilateral.


A prioridade atribuāda pelo Presidente da Repāblica ao combate ā fome e ā luta contra a pobreza cria uma expectativa de um papel protagônico do Brasil na promoįāo dos direitos econômicos, sociais e culturais. Esta ęnfase nāo significa desatenįāo para os direitos civis e polāticos, cuja valorizaįāo - para uma democracia que se consolida como a brasileira – permanece parte integral da orientaįāo humanista da diplomacia do Governo Lula.


O Fome Zero, que incorpora programas de educaįāo, saāde, erradicaįāo do trabalho infantil, geraįāo de emprego e de renda, deverā agir como um projeto aglutinador em prol da inclusāo social.


Mas era preciso, também, levar esta mensagem ao plano global. Foi o que o Presidente Lula fez ao deslocar-se de Porto Alegre para Davos.


Inseridos que estamos no Continente de maior diversidade biolāgica do planeta – a América do Sul – queremos consolidar os avanįos logrados nas Conferęncias do Rio de Janeiro e de Johanesburgo, o que sā serā possāvel mediante forte engajamento polātico.


Dispomos de uma lideranįa de especial ressonância neste âmbito, na pessoa da Ministra Marina Silva, cuja trajetāria pessoal e polātica é um emblema e uma fonte de inspiraįāo para o tratamento individual e coletivo do complexo temārio ambiental.


O reconhecimento de que vivemos num mundo crescentemente interligado nāo deve implicar renāncia a nossa capacidade de intervir na realidade para corrigir desequilābrios e injustiįas. Sem querer emprestar-lhe palavras que ele nāo usou, poderia dizer que a essęncia da mensagem do Presidente Lula aos lāderes da economia e da polātica mundial, reunidos nos Alpes suāįos, foi a de que nāo hā sustentabilidade econômica sem sustentabilidade social.

Uma agenda comercial afirmativa


O Brasil responde por menos de 1% dos fluxos de comércio internacional - participaįāo modesta para paās de estrutura produtiva agrācola e industrial do porte da nossa. Os resultados jā obtidos no primeiro trimestre deste ano, com um crescimento de 26,5% sobre o valor exportado em mesmo perāodo no ano passado, podem ser vistos como encorajadores e apontam na direįāo de uma polātica comercial mais afirmativa.


Parte dessa mobilizaįāo terā que se desenvolver no plano interno. Na ārea externa, o Governo do Presidente Lula empreenderā esforįos também para abrir novos mercados e reduzir as barreiras ās exportaįāes brasileiras.


E de nosso interesse atuar nos diversos tabuleiros, o da OMC, o da ALCA, o das negociaįāes MERCOSUL-Uniāo Européia, entre outros, movidos pela busca de vantagens concretas e cientes de nosso status de paās em desenvolvimento, que precisa preservar espaįos para polāticas sociais, tecnolāgicas, industriais.


Dada a estrutura do comércio exterior brasileiro, com interesses econômica e geograficamente diversificados, a OMC – foro que ganha um carāter verdadeiramente universal com a adesāo plena da China e, em breve, da Rāssia - permanece um palco privilegiado de negociaįāes. A atuaįāo do Brasil na OMC se pautarā pela construįāo de um sistema multilateral de comércio mais eqüitativo, mediante a correįāo de distorįāes e a diminuiįāo das restriįāes ā nossa capacidade de fomentar polāticas voltadas para o desenvolvimento. Trata-se de uma verdadeira batalha pela eliminaįāo de barreiras e subsādios e pelo nivelamento das regras do jogo que estā sendo enfrentada com determinaįāo.


Todos sabemos que o comércio pode ter grande efeito gerador de crescimento econômico e riqueza. Na prātica, contudo, os mais desenvolvidos nāo hesitam em manter sua prāpria lāgica do livre comércio e cercar-se ao mesmo tempo de regimes de exceįāo para setores em que demonstram vulnerabilidades, como o agrācola, o siderārgico, o tęxtil – justamente aqueles em que os paāses em desenvolvimento demonstram vantagens comparativas.


As anomalias do comércio agrācola constituem uma disfunįāo particularmente intolerāvel. O Brasil é extremamente competitivo e perde bilhāes de dālares anualmente em exportaįāes nesse setor. Temos conscięncia de que, independentemente das possibilidades de acesso aos mercados hemisférico e europeu que poderāo advir das negociaįāes da ALCA e de um acordo com a Uniāo Européia, a soluįāo para o comércio agrācola passa em boa medida pela OMC - sobretudo no que se refere ā eliminaįāo dos subsādios e maior disciplina para as medidas de apoio doméstico. A persistęncia de impasses em agricultura, na rodada de Doha, nāo deixarā de afetar as negociaįāes multilaterais como um todo e os processos plurilaterais.


Igualmente preocupante é a falta de progresso em outras āreas de especial interesse para o Brasil e os paāses em desenvolvimento, como as da Implementaįāo dos resultados da rodada Uruguai, Tratamento Especial e Diferenciado, e a operacionalizaįāo do parāgrafo 6 da Declaraįāo sobre TRIPs e Saāde Pāblica.


Assumimos, em 1o de novembro passado, a co-Presidęncia das negociaįāes para uma ārea de Livre Comércio das Américas (ALCA), que ingressam em fase de definiįāes, com o inācio do intercâmbio de ofertas e revisāo de ofertas jā apresentadas. Até o momento, o MERCOSUL apresentou ofertas em bens agrācolas e nāo-agrācolas. Em parte em funįāo da natureza discriminatāria da oferta norte-americana em bens, o Brasil e a Argentina decidiram deixar para outro momento a apresentaįāo de oferta em serviįos. Nenhum dos quatro sācios do MERCOSUL apresentou ofertas em investimentos ou compras governamentais. E forįoso reconhecer que as negociaįāes em torno da ALCA suscitam expectativas e inquietaįāes legātimas junto ā opiniāo pāblica. Parlamentares, representantes do setor privado, sindicatos, organizaįāes nāo-governamentais desejam conhecer os contornos especāficos das negociaįāes para poder expressar seus pontos de vista e contribuir para a definiįāo de posiįāes negociadoras. Paralelamente nāo podemos desconhecer que o mercado norte-americano e outros sāo potencialmente muito atraentes para vārios setores de nossa indāstria e do agro-negācio. Em consonância com o primado da democracia que orienta toda a aįāo governamental, favorecemos um amplo debate nacional sobre a ALCA, garantindo a transparęncia do processo em todas suas etapas. Nāo deixaremos que o automatismo, caracterāstico de muitos processos negociadores, prevaleįa sobre a avaliaįāo cuidadosa – e, tanto quanto possāvel, consensual na sociedade – do interesse brasileiro.


Com a Uniāo Européia, o MERCOSUL busca formar uma associaįāo inédita entre dois blocos econômicos. A conclusāo dessa negociaįāo em 2005 coincidirā com o término previsto para os processos da OMC e da ALCA e constitui indispensāvel fator de equilābrio, sobretudo em relaįāo a esta āltima. A expectativa é de que até o final do ano corrente se consiga negociar os contornos de um acordo equilibrado, capaz de atender aos interesses do MERCOSUL - que cumpriu sua parte ao apresentar oferta cobrindo 83,5% do valor do comércio para fins de desgravaįāo em dez anos. Esperamos que a parte européia responda com uma proposta de acesso significativo, sobretudo em agricultura.


Para que estes exercācios de natureza hemisférica e inter-regional se traduzam em verdadeiras vantagens para o Brasil, é necessārio que as negociaįāes comerciais multilaterais na OMC avancem concomitantemente. Na realidade, as tręs negociaįāes configuram um exercācio ānico e interligado, na medida em que nossos parceiros remetem ao contexto da rodada de Doha nāo sā a consideraįāo dos temas relacionados ao capātulo agrācola, como também o exame das "regras" (anti-dumping e subsādios, entre outros).


Tenciono explorar outras possibilidades de aproximaįāo econômico-comercial com parceiros do mundo em desenvolvimento e dedicarei atenįāo especial ā promoįāo de novos entendimentos com o México, āfrica do Sul, China, āndia, os paāses da Associaįāo do Sudeste Asiātico e, de modo muito especial, o mundo ārabe.


Os debates em curso na América Latina, āsia e āfrica sobre modelos de desenvolvimento mais sintonizados com as circunstâncias sācio-econômicas das populaįāes do Sul convergirāo para a XI Conferęncia das Naįāes Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a realizar-se no Brasil em junho de 2004. A UNCTAD, que tem sido capaz de revitalizar-se como foro e como instituiįāo, sob o comando do nosso compatriota, o Embaixador Rubens Ricupero, continuarā a merecer todo o apoio do Governo brasileiro pela pertinęncia de sua contribuiįāo analātica e propositiva, centrada na perspectiva do mundo em desenvolvimento.


Parcerias diversificadas com paāses desenvolvidos e em desenvolvimento


Definida a prioridade sul-americana, cabe traįar os elementos mais marcantes de nossa pauta diplomātica com outras regiāes do mundo.


A preeminęncia econômica e militar dos Estados Unidos, no atual contexto internacional, situa o relacionamento com Washington em uma categoria ā parte. Como afirmei em meu discurso de posse, nosso desejo é o de fortalecer as bases para o entendimento construtivo e a parceria madura. Os contatos iniciais entre os dois Chefes de Estado foram positivos. Continuo a trabalhar com o Secretārio de Estado Colin Powell em torno da idéia de uma reuniāo de cāpula bilateral. Dentro de um męs, receberei pela segunda vez o Representante Especial para Comércio, Bob Zoellick. Estes contatos tęm contribuādo para manter a ęnfase em agricultura da rodada de Doha, em sintonia com as preocupaįāes do Brasil e demais membros do Grupo de Cairns.


Tanto em âmbito multilateral, como no quadro mais estritamente bilateral, as duas maiores democracias das Américas terāo interesse em aperfeiįoar os mecanismos de consulta e conhecimento recāproco de posiįāes. O diālogo polātico com os EUA, respeitadas as diferenįas de ponto de vista, permanece essencial. A presenįa dos EUA no īgrupo de amigos` da Venezuela deve ser encarada sob este prisma. Meus contatos com o Secretārio de Estado tęm sido freqüentes e construtivos.


O atual Governo dā especial importância ao estreitamento dos laįos polāticos com a Europa, numa visāo de mundo que privilegia a busca de uma saudāvel multipolaridade. Desde jā, pode-se afirmar que as visitas do Presidente Lula a Berlim e Paris terāo ajudado a criar uma base sālida de confianįa pessoal entre os mandatārios destes paāses, a ser valorizada e expandida. Além dos paāses mencionados, manteremos consultas bilaterais polāticas com o Reino Unido, e o Presidente deve visitar Espanha e Portugal ainda este ano. A Comissāo de Alto Nāvel Brasil-Rāssia deverā contar, este ano, com um componente empresarial. Eu prāprio jā estive duas vezes, em menos de tręs meses, com o Chanceler Ivanov para conversas de cunho polātico. Juntamente com os outros membros da Trāica do Grupo do Rio, participei de densa e proveitosa reuniāo com o Presidente Putin. Na seqüęncia dos contatos do Presidente Lula com o Chanceler Schroeder e o Presidente Chirac, mantive consultas polāticas com os Ministros Joschka Fischer e Dominique de Villepin para tratar de temas da atualidade e questāes estruturais, como a reforma das Naįāes Unidas no novo contexto internacional. Também em Atenas, em reuniāo entre Ministros da América Latina e da Uniāo Européia, pude participar de um intercâmbio extremamente ātil, e sob muitos aspectos crātico, sobre o futuro da cooperaįāo internacional e do multilateralismo. Este debate incluiu a necessidade de repensar o sistema financeiro internacional, bem como a de refletir sobre uma "nova barganha" com a maior potęncia, que conduza a relaįāes mais equilibradas, com reforma das Naįāes Unidas, em benefācio de todos.


Recebi em princāpios do ano o Chanceler do Canadā, para um encontro produtivo de renovaįāo do diālogo e da cooperaįāo. A presenįa do México no Conselho de Seguranįa e seu ativo papel na OMC me tęm levado a conversar freqüentemente com o Chanceler Derbez a respeito do temārio internacional, polātico e econômico. Com o Japāo desejamos estabelecer uma interaįāo comercial mais dinâmica, compatāvel com a importância das duas economias e com o intenso intercâmbio humano, que marca a Histāria das relaįāes nipo-brasileiras.


Com a āfrica desejamos promover uma polātica verdadeiramente preferencial, em consonância com os interesses de amplos setores da sociedade brasileira e, particularmente, dos afro-descendentes. Em maio, o Presidente Lula abrirā um grande Fārum Brasil-āfrica, em Fortaleza, com vistas ā coleta de subsādios para a reformulaįāo e redefiniįāo de nossa polātica africana. Na presidęncia da Comunidade dos Paāses de Lāngua Portuguesa, estamos procurando traduzir em projetos diversificados a natural afinidade e solidariedade que nutrimos pelos povos de cada um de seus membros. Em Sāo Tomé e Prāncipe deverā ser inaugurada, em breve, uma Embaixada residente do Brasil. Tenho mantido contatos também com a Ministra Azuma da āfrica do Sul para examinar formas de impulsionar o relacionamento bilateral. O Presidente Lula tenciona realizar uma viagem ā āfrica em agosto. O itinerārio deverā incluir Angola e āfrica do Sul, entre outros paāses.


O aprofundamento das relaįāes com o Oriente Médio se processarā tanto pela via bilateral como por intermédio de contatos mais sistemāticos com a Liga dos Estados ārabes, o Conselho de Cooperaįāo do Golfo e a Uniāo do Magrebe ārabe. O contato de alto nāvel se inaugurarā com a visita ao Brasil do Primeiro-Ministro do Lābano, Rafic Hariri – que participarā do III Congresso do Conselho Empresarial Internacional Libanęs, a realizar-se em Sāo Paulo no męs de junho. Outras iniciativas estāo previstas tanto no plano polātico quanto no econômico-comercial. Por se tratar do paās da regiāo com maior populaįāo e economia mais diversificada, o Egito retem particular relevância neste contexto.


Tenho mantido interlocuįāo intensa com os Embaixadores do Conselho de Cooperaįāo do Golfo e demais paāses ārabes em Brasālia. De todos recebi manifestaįāes de apreįo pelos esforįos do Governo brasileiro em explorar soluįāes pacāficas para os problemas da regiāo. A posiįāo brasileira em defesa da rāpida implantaįāo de um Estado Palestino independente, e do direito ā seguranįa de Israel dentro de fronteiras internacionalmente reconhecidas, é apreciada.


As relaįāes com China e āndia atravessam importante perāodo de redimensionamento. A RPC passou ā condiįāo de quarto maior importador de produtos brasileiros em 2002. A cooperaįāo espacial prossegue com o lanįamento do segundo satélite, estando prevista a construįāo de outros satélites inclusive de telecomunicaįāes. Em parceria com empresa chinesa, a Embraer estā presente em Harbin. O primeiro aviāo produzido em "joint-venture" ficarā pronto em novembro deste ano. A parceria estratégica se completa com um diālogo polātico de alto nāvel e um cronograma intenso de visitas de parte a parte. Em telefonema ao recém-nomeado Chanceler Li Zhao Xing, pude reafirmar nosso propāsito de trazer o relacionamento bilateral a patamares ainda mais elevados, conforme afirmara o Presidente Lula em jantar na Embaixada da RPC hā poucas semanas.


As relaįāes com a āndia também adquirem nova relevância. Nos āltimos tręs anos, o comércio bilateral triplicou em valor, situando-se hoje em 1,2 bilhāo de dālares. Em princāpios de junho, receberei a primeira visita de um Chanceler da āndia ao Brasil, estando prevista sua permanęncia em Brasālia para um encontro trilateral com nossa homāloga sul-africana. Este encontro, que pode ser qualificado como "sul-sul-sul", oferecerā oportunidade para uma concertaįāo de certa forma inédita. O Ministro indiano da Defesa também deverā vir ao Brasil nos prāximos meses.


A pauta comercial continuarā a merecer atenįāo prioritāria em nossas relaįāes com os paāses da ASEAN. Destaco, neste contexto, a recente visita ao Brasil do Primeiro-Ministro Mahatir Mohamed, da Malāsia, e o importante encontro com o Presidente Lula. Na condiįāo de Presidente do Movimento Nāo-Alinhado, Mahatir compartilhou com o Governo brasileiro suas percepįāes sobre a agenda internacional e o papel que podem hoje assumir os paāses em desenvolvimento em defesa de uma ordem internacional mais sensāvel a suas caręncias.


Embora fora do âmbito estritamente polātico-diplomātico, nāo posso deixar de mencionar que o crescente nāmero de brasileiros que vivem no exterior apresenta novos desafios ā atividade consular, que deve estar aparelhada para a prestaįāo de uma assistęncia expedita e cada vez mais individualizada. Sempre que surgirem situaįāes de instabilidade, como a que ora se verifica no Golfo, serāo montados esquemas especiais de atendimento a nacionais que precisem de proteįāo ou desejem regressar ao Brasil. Nāo devemos esquecer que a assistęncia consular é a vitrine do Itamaraty no exterior. E fundamental que tenhamos uma atitude de cortesia e interesse pelos problemas e indagaįāes daqueles que procuram um Consulado brasileiro.  

Conclusāo

Para enfrentar os desafios da hora presente serā indispensāvel poder contar com lideranįas dotadas de credibilidade e autoridade. O Brasil tem responsabilidades a assumir. Participar de sua aįāo diplomātica deve ser visto como muito mais do que um simples emprego. Trata-se, estou seguro, de envolvimento em um esforįo coletivo de ressonância histārica. Os jovens diplomatas que ingressam no Itamaraty devem ter a certeza de que o Paās necessita de seu talento e criatividade na projeįāo dos valores e objetivos que hoje inspiram a aįāo governamental no plano internacional, em defesa da Paz e do Direito e na busca do desenvolvimento e da justiįa social.


A tātulo de comentārio pessoal, confesso que olho para os que comeįam hoje a carreira diplomātica com uma certa inveja. Aqueles que sāo da minha geraįāo tiveram que enfrentar traumas e sofrimentos decorrentes de limitaįāes ā livre expressāo de idéias – que felizmente fazem parte do passado.


Nāo queria concluir sem uma palavra a respeito da administraįāo interna do Ministério. A perspectiva humanista que o Presidente Lula estā imprimindo ā atuaįāo do Governo deve também encontrar reflexo em nossas circunstâncias de trabalho no Itamaraty. As questāes administrativas e de organizaįāo da carreira, bem como aquelas que se referem ā discriminaįāo de etnias e de gęnero assumem especial importância neste contexto. Comprometi-me, em meu discurso de posse, a examinar sugestāes e reivindicaįāes. Tenho presente a necessidade de atender ās justas expectativas por renovaįāo e previsibilidade. Estou certo de que, juntos, encontraremos as melhores soluįāes para promover as transformaįāes necessārias.

 

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